domingo, 10 de fevereiro de 2008

Ouro de Tolo - Raul Seixas - Krig-Ha, Bandolo! (1973)

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês
Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar um Corcel 73
Eu devia estar alegre e satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa
Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa
Eu devia estar contente
Por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto: E daí?
Eu tenho uma porção de coisas grandes
Pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado
Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família ao Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos
Ah! Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco
É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua
Cabeça animal
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou
policial
Que está constribuindo com sua parte
Para nosso belo quadro social
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarda cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam
quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam
quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador

Comentário: O filósfo Artur Schopehauer dizia que a vida é sofrimento porque é um constante querer eternamente insatisfeito e que a satisfação de um desejo é como a esmola que se dá ao mendigo, só consegue manter-lhe a vida para lhe prolongar a miséria. Vejo que a letra da música Ouro de tolo reflete essa filosofia de descontentamento eterno e se atentarmos para nossas atitudes, poderemos perceber que muitas de nossas tristezas se alinham a essa forma de pensar. Ainda mais nos dias atuais que o mundo inteiro tornou-se um vitrine.

Um comentário:

Ramon Alcântara disse...

olá Zé. é justamente do prelúdio dos dias atuais que Raul canta nessa música. dos conformados, dos alienados, que não refletem nem sequer seus próprios atos. ao contrário de Schopehauer, acho que Raul canta um tipo de humano que se alegra pelo falso brilho do ouro de tolo, o brilho volátil. mas sempre uma espécie. talvez raul, nesta música e em outras cante a desitência da luta diante desse tipo, embora nessa desitência esteja implicíto a existência de outros tipos mais brilhosos, como ele mesmo. abz